Enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva acolheu em Lisboa a sede do centro Rei Abdullah Bin Abdulaziz.
A organização, que é financiada pela Arábia Saudita, foi expulsa da Áustria por violações de direitos humanos por parte do governo árabe.

Em 2022, um centro de ‘diálogo religioso’ financiado pela Arábia Saudita foi forçado a sair da Áustria, pois mantiveram-se em silêncio perante o assassinato de Jamal Khashoggi (um jornalista dissidente saudita) e a ameaça de execução de Murtaja Qureiris (participante de protestos antigovernamentais) por parte do governo árabe.
Entretanto, Augusto Santos Silva, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, acolheu a sede deste centro de ‘diálogo religioso’ em Lisboa, considerando o seu trabalho ‘indispensável‘.
Na Europa, a Kaiciid apoia esforços para abordar a imigração e o ‘discurso de ódio’, enquanto que em África ‘constrói resiliência perante a instabilidade política, alterações climáticas e conflitos intercomunitários’.
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Em termos de plataformas, a Kaiciid conta com a EULEMA (Majlis dos Líderes Muçulmanos Europeus), que consiste numa rede informal de líderes religiosos muçulmanos europeus que procuram ‘sincronizar’ as vozes muçulmanas na Europa, dando apoio particular à MJLC (Conselho de Liderança Judaica-Muçulmana).
Esta última, foi fundada para responder à necessidade de ‘combater preconceitos, desinformação, ataques e violência’ contra aqueles que ‘praticam a fé’.
Ainda, o centro religioso reúne actores das comunidades muçulmana e judaica da Europa, que estão igualmente representadas no Conselho, para enfrentar o aumento da ‘islamofobia’ e do ‘anti-semitismo’.

A Kaiciid dispõe da IPDC (Plataforma Inter-religiosa para o Diálogo e Cooperação no Mundo Árabe), que ‘defende os direitos’ e a ‘inclusão’ de todas as comunidades no mundo árabe, tendo como desígnio ‘combater o ódio’ e o ‘sectarismo’ e abordar as ‘ameaças à coexistência pacífica’.
Em termos de parcerias, a Kaiciid colabora, nomeadamente, com vários órgãos das Nações Unidas e com a ICESCO (Organização do Mundo Islâmico para Educação, Ciência e Cultura).
Quanto à composição do instituto, a Arábia Saudita, Áustria e Espanha são responsáveis por supervisionar o trabalho da Kaiciid. No entanto, nos seus relatórios anuais, há somente a menção de que a Arábia Saudita contribui financeiramente para o instituto.
A Lobo Media contactou os responsáveis da Kaiciid quanto aos financiamentos sauditas, no entanto, não obtivemos resposta.
Rede para o diálogo
Entre as iniciativas dos membros da Rede para o Diálogo está o projecto ‘Pontes de Fé’, que reuniu mais de 150 refugiados, requerentes de asilo e líderes religiosos das comunidades cristãs, judaicas e muçulmanas no Porto (Portugal) e Barcelona (Espanha).
Os eventos contaram com diálogos sobre combate à ‘discriminação religiosa’ e propostas de acção conjunta, incluindo ‘programas de mentoria’ baseados na fé para refugiados recém-chegados.
Em 2024, a Kaiciid realizou, em Lisboa, um fórum que contou com a participação de Carlos Moedas e Augusto Santos Silva. Outras figuras incluem François Hollande, ex-presidente francês. A conferência discutiu ‘cidades inclusivas’ e ‘alterações climáticas’.
Durante a conferência, Carlos Moedas afirmou que ‘a nossa tarefa hoje: aceitar a diversidade como algo positivo, como um verdadeiro activo do nosso mundo.’
A Kaiciid deu formação a actores políticos e representantes dos media em Portugal. Ainda, membros desta rede ‘deram voz a refugiados e imigrantes’ de forma a ‘reformular a narrativa‘ sobre a imigração, para além de realizarem ‘exercícios de construção de confiança’ em Sicília para refugiados.
Privilégios da organização em Portugal
Segundo a Resolução da Assembleia da República n.º 320/2021, a Kaiciid tem os seguintes privilégios concedidos pelo Estado Português:
- Isenção de impostos directos;
- Isenção de taxas aduaneiras;
- Isenção ou reembolso de impostos indirectos;
- Isenção de buscas ou apreensão;
- Imunidade de qualquer acção judicial para os funcionários;
- Imunidade de apreensão da sua bagagem pessoal e oficial.
Influência saudita
O académico Paul Hedges questionou se o ‘diálogo religioso’ em relações internacionais pode constituir dialogue-washing para regimes autoritários. Numa análise de 2023, o académico identificou quatro críticas principais ao KAICIID:
- Funcionar como uma frente de relações públicas saudita;
- Não poder operar dentro da própria Arábia Saudita;
- Ignorar abusos de direitos humanos;
- Ser um talk shop sem resultados práticos.
Por exemplo, em 2014, a Arábia Saudita condenou a mil chicotadas Raif Badawi (blogger que insultou o Islão), não obstante, a Kaiciid não criticou publicamente o caso.
Já a estudiosa Riffat Hassan, que participou no fórum de Kaiciid em Viena (2013), entende que: ‘Com o surgimento da Kaiciid e um enorme fluxo de fundos muçulmanos, iniciou-se uma nova era no mundo do diálogo inter-religioso’.
European Policy Dialogue Forum
O Fórum Europeu de Diálogo de Política pretende ‘remodelar as narrativas sobre imigração’, com foco na ‘percepção negativa actual sobre os refugiados’.
Segundo o website, em vez de se dar espaço para discursos ‘depreciativos’ e de ‘ódio’, exploram-se formas de fomentar a ‘tolerância’ e a ‘compreensão’. Não menos importante, neste fórum partilham-se práticas para a comunicação social, académica e política para combater o ‘discurso de ódio’ e a ‘discriminação’.
A 3ª edição do Fórum Europeu de Diálogo de Política, realizado em Lisboa, foi dedicado à ‘inclusão social’ dos imigrantes na Europa e no combate ao ‘discurso de ódio’. Augusto Santos Silva esteve presente e afirmou que ‘o pluralismo enriquece as sociedades (…) todas as religiões são igualmente reconhecidas perante a nossa lei (portuguesa)’.
Finalmente, a Kaiicid colaborou com a MEERU, uma organização portuguesa de apoio a imigrantes. Segundo o seu director-executivo: ‘Portugal tem realojado activamente refugiados de campos sobrelotados na Grécia e Itália, recebendo amplos elogios de agências internacionais, incluindo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados’.
Kit de ferramentas multimédia
Num relatório emitido pelo Kaiciid, a organização afirmou que nas redes sociais, o ‘discurso de ódio’ alcança públicos mais amplos e leva a ‘consequências desastrosas’. Ainda, instou à necessidade ‘urgente’ de formação sobre como detectar e combater ‘notícias falsas’, e distinguir entre liberdade de expressão, crítica e ‘discurso de ódio’.
Por último, o centro de ‘diálogo interreligioso’ entende que seria necessária formação sobre ‘xenofobia, justificação religiosa da guerra, disseminação de mitos e glorificação de vitórias violentas‘.
Reiterando o seguinte: ‘Neste contexto, os media detêm tanto o poder como a responsabilidade de desafiar narrativas extremistas, estereótipos e discurso de ódio. Os profissionais e instituições dos media devem estar conscientes da responsabilidade social que têm e devem cultivar uma cultura de inclusão, diálogo e aceitação’.
Nota: Os principais intervenientes visados no artigo foram contactados previamente, no entanto, até à data da publicação não obtivemos qualquer resposta.
Bibliografia
View of Interreligious Dialogue in the Squeeze between Diplomacy and Contextual Practices
KAICIID quits Vienna, unable to shake off negative Saudi image
Austria to shut Saudi-backed religious dialogue centre in rights protest | Reuters
(Open Access) Engaging in Interreligious Dialogue: Recollections and Reflections of a Muslim Woman (2014) | Riffat Hassan | 3 Citations
Resolução da Assembleia da República n.º 320/2021, de 14 de dezembro | DR
European Policy Dialogue Forum on Refugees and Migrants | KAICIID
kaiciid_annualreport2021-web-high.pdf
djf-arab_region_policy_paper_web_0.pdf
Partnerships and External Relations | KAICIID
kaiciid_annualreport2024-spreads.pdf
KAICIID Global Dialogue Forum | KAICIID





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